Nunca me esqueças, nem nunca me julgues mal. Serei tudo de melhor do que possas esperar de mim.
O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, as professoras, a empregada de mesa do café e a mulher do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo.
A tua lembrança é um prazer que desliza, arrepiando-me; chegas-te de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes momentâneos: encontros casuais, um almoço, um passeio naquela ilha, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos.
Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um namorado e mais do que um amigo.
Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito indeciso e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de me voltar a apaixonar amanhã.
Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e liberta. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro.
Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos, como jardins escondidos e ilhas desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, estruturo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais e os bons amigos
. Encontro-te no coração de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção.
Tu cheiras sempre bem: uma mistura de natural com selvagem, da qual sobressai o adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas.
Acima de tudo, estremeces-me. E é esta a calma, que não reconhece o andar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê.
Retrato-te na minha cabeça a toda a milésima, mas tal como um amigo é para a sua melhor amiga, assim tu és para mim.
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